O solar off-grid é frequentemente discutido em termos de produção de pico e autossuficiência teórica. Estamos a operar o sistema há dois anos e gostaríamos de partilhar o que realmente faz, mês a mês, no clima do Norte de Portugal.
## O Sistema
- **Painel solar:** 11,4 kWp (24 × 475 W), orientação sul a 30° de inclinação - **Armazenamento em bateria:** 20 kWh utilizáveis (unidades Pylontech US5000, 4 × 5 kWh) - **Inversor/carregador:** Victron Quattro 48/10000, com unidade de monitorização Cerbo GX - **Reserva:** gerador diesel de 6 kVA, utilizado como alternativa
O sistema foi dimensionado para um máximo de 10 hóspedes mais dois residentes permanentes, com uma carga diária típica de 12 a 18 kWh dependendo da estação e da ocupação.
## Irradiância no Norte — Realidade vs. Valores Publicados
O valor publicado de horas de pico solar (HPS) para o norte do Minho é de aproximadamente 1.650 a 1.700 horas por ano. Este valor é correto como média anual. O que obscurece é a variância mensal, que é o valor que realmente importa para o dimensionamento do sistema.
**Produção mensal real do nosso sistema (médias aproximadas):**
- Janeiro: 280–320 kWh - Fevereiro: 380–420 kWh - Março: 600–660 kWh - Abril: 820–900 kWh - Maio: 1.000–1.100 kWh - Junho: 1.150–1.250 kWh - Julho: 1.200–1.300 kWh - Agosto: 1.100–1.200 kWh - Setembro: 820–900 kWh - Outubro: 550–620 kWh - Novembro: 320–380 kWh - Dezembro: 240–290 kWh
A relação entre o nosso pior mês (dezembro/janeiro) e o melhor (julho) é de aproximadamente 1:4,5. É este o número que importa para o design do sistema, não a média anual.
## O Que Funciona a Solar
Durante os meses produtivos (março a outubro), o sistema solar suporta praticamente todas as cargas: cozinha (placas de indução), aquecimento de água (dois depósitos de imersão de 200 litros, geralmente carregados até ao final da manhã), iluminação, bombas, carregamento de dispositivos dos hóspedes e a internet Starlink por satélite.
A única carga que colocamos num temporizador para evitar picos de consumo exclusivamente solar é a máquina de lavar — programada para funcionar entre as 10h e as 14h nos dias com sol.
Consumo diário máximo num dia de retiro completo com 10 hóspedes: aproximadamente 18 a 22 kWh. Produção diária máxima em junho: aproximadamente 55 a 60 kWh. Em junho estamos a gerar cerca de 3 vezes o que consumimos; a bateria fica cheia a meio da manhã e não exportamos nada (não há ligação à rede).
## Inverno: A Realidade
Cinco a seis dias consecutivos de tempo encoberto ou chuvoso não são invulgares entre novembro e fevereiro. Esta é a parte da narrativa do solar off-grid que é frequentemente omitida.
Após três dias consecutivos completamente encobertos, o nosso banco de baterias de 20 kWh, mesmo com gestão conservadora, fica a 30 a 40% de carga. O sistema de monitorização aciona o arranque do gerador a 25% de carga. Na prática, durante as semanas de retiro de inverno, operamos o gerador cerca de 2 a 3 horas por dia em períodos de tempo nublado, tipicamente de manhã antes de a produção solar retomar.
Consumo de gasóleo do gerador por hora: aproximadamente 1,2 litros à carga típica. Uma semana de inverno com 4 dias nublados: cerca de 10 a 12 litros de gasóleo, aproximadamente 15 a 18 € aos preços atuais.
Isto não é uma falha do sistema — é física honesta. Uma instalação solar off-grid no norte de Portugal em funcionamento durante todo o ano sem abordagem complementar precisaria de uma capacidade de bateria desproporcionada em custo relativamente ao seu uso. O gerador diesel de reserva é a solução de engenharia correta para os períodos nublados pouco frequentes. Quem lhe vender um sistema totalmente solar off-grid no Norte de Portugal para uso anual sem abordar esta questão, ou está a sobredimensionar a bateria a um custo significativo, ou está a minimizar o problema.
## Viabilidade Financeira
Antes da instalação solar, tínhamos uma ligação à rede e uma tarifa elétrica rural portuguesa típica. Custo anual de eletricidade: aproximadamente 3.200 € (fornecimento da rede, retiros e doméstico combinados).
O custo da instalação solar foi de 22.500 €, incluindo painéis, inversor, baterias, cablagem e instalação. Custo anual de gasóleo para o gerador de reserva: aproximadamente 180 €.
Custo anual efetivo de eletricidade após a instalação: aproximadamente 180 € (apenas gasóleo). Poupança: aproximadamente 3.020 € por ano.
Período de retorno simples: aproximadamente 7,4 anos.
É um retorno razoável para uma infraestrutura que deverá durar mais de 20 anos (os inversores Victron tipicamente funcionam 15 a 25 anos; as baterias Pylontech têm uma vida útil nominal de 6.000 ciclos a 80% de profundidade de descarga, o que a ciclos diários representa mais de 16 anos).
## O Que Dimensionaríamos de Forma Diferente
Duas coisas.
Primeiro: aumentaríamos a capacidade da bateria para 30 kWh. Os 10 kWh adicionais reduziriam significativamente o uso do gerador no inverno e proporcionariam um melhor buffer noturno nas noites de verão com elevado consumo. Custo atual para capacidade Pylontech adicional: aproximadamente 3.500 €. Adicionaremos no terceiro ano.
Segundo: subespecificámos a capacidade de aquecimento de água. Dois depósitos de imersão de 200 litros são suficientes para 6 hóspedes, mas criam pressão durante retiros com 10 hóspedes se os duches quentes acontecerem mais depressa do que o solar consegue reaquecer. Um terceiro depósito — aproximadamente 400 € instalado — resolveria isto. Planeado para este outono.
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*Se está a projetar um sistema energético off-grid para uma propriedade rural no Norte e quer falar sobre os números reais em vez dos teóricos, envie-nos uma mensagem.*